Tecnologia para redução do desperdício de alimentos em supermercados é pauta de evento promovido pela Eco Circuito

eco circuito sptw desperdício em supermercados

Intitulado “Alimentos & Resíduos – como a tecnologia viabiliza a aplicação dos 3Rs contra o desperdício de alimentos em supermercados”, o encontro fez parte da SP Tech Week 2019 e aconteceu no Spaces Vila Olímpia, em novembro do ano passado.

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Todos os anos, mais de 40 milhões de toneladas de alimentos vão parar no lixo – ou seja, metade de todos os resíduos produzidos no país. De acordo com a FAO Brasil (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o desperdício acontece em todo o processo. Contudo, os lares e supermercados são responsáveis por 10% do montante total. 

De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o prejuízo das empresas do setor em decorrência do desperdício de alimentos é maior que R$ 7,2 bilhões.

O desperdício tem grandes impactos, sobretudo sociais e ambientais:

  • Conforme relatório da ONU Verde e do Instituto Akatu, o volume de alimentos desperdiçado diariamente no Brasil seria capaz de alimentar 25 milhões de pessoas. A saber, isso é 5 vezes o volume de brasileiros que, segundo o IBGE, convivem com a fome.
  • Se descartados com o lixo comum, os resíduos alimentares vão para aterros sanitários onde então potencializam a emissão de gases de efeito estufa. Além disso, essa condição atrai vetores de doenças (como moscas, ratos e baratas) e contribui para que esses espaços cheguem mais rápido à sua capacidade-limite. Aliás, vale ler a matéria do Valor Econômico sobre o cenário de São Paulo, cujo aterro deve atingir seu limite de capacidade em 8 anos.

>> Clique aqui e saiba mais sobre o desafio dos orgânicos no Brasil.

Diante desse cenário, aceitamos o convite da SP Tech Week para promover um debate na programação do evento. Acreditamos primordialmente da necessidade de agirmos em rede e de forma urgente. A ideia era discutir como a tecnologia e a aplicação dos 3Rs podem contribuir para uma redução no desperdício de alimentos em supermercados. Confira abaixo um resumo do evento, que contou com mediação da Flavia Cunha, fundadora da Casa Causa e embaixadora do Instituto Lixo Zero SP. Também participaram da roda de conversa o diretor executivo da Eco Circuito, Eduardo Prates; o CEO da SaveAdd, Salvador Iglesias; e o coordenador do Banco de Alimentos, Herberto Bergmann.

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Herberto Bergmann, Salvador Iglesias, Flavia Cunha e Eduardo Prates

“Precisamos abrir o saco preto!”

Foi com essa frase que a Flávia iniciou o bate-papo, mencionando que, no saco preto, não dá para ver o que há dentro. E, por isso, muitas vezes causa surpresa o fato de, no geral, mais da metade do que descartamos ser comida.

Para contextualizar o público presente, primeiramente a Flávia falou sobre os dois aspectos do desperdício, ambiental e social, que citamos acima. Em seguida, apresentou alguns dados que apontam para um cenário promissor e mais consciente:

  • Entre 2002 e 2019, cresceu 6% o volume de empresas que acreditam na importância de adotar práticas sustentáveis: de 53% para 59%. O aumento é tímido, mas é um passo que condiz com o crescimento da conscientização da sociedade civil. Além disso, é resultado da pressão cada vez maior por soluções que viabilizem um consumo com menos impacto.
  • Do lado dos consumidores, 55% afirmam dar preferência a empresas sustentáveis. Similarmente, 52% alegam não adquirir marcas ou produtos que não se posicionam ou atuam sobre o tema.

Em supermercados, a postura crítica dos consumidores já é uma realidade. Não é incomum, por exemplo, o abandono do carrinho por não encontrar produtos sustentáveis. Ou, então, a decisão por substituir o local onde faz compras por outros com sortimento que gera menor impacto.

Informação de qualidade ainda é um problema

Conforme dados divulgados pela IPEA e o Ibope Inteligência, 66% dos brasileiros sabem pouco ou nada sobre reciclagem. Contudo, a amplificação de informações sobre o tema e orientação da população sobre melhores práticas é um desafio. Afinal não é à toa que muitas empresas e órgãos públicos têm abordado o tema em campanhas de conscientização. Mas não são todos os casos que cumprem esse objetivo de forma consistente.

Citada no evento, a campanha promovida pela Prefeitura de São Paulo, o Recicla Sampa, é um exemplo. Com o slogan “Você separa o lixo em 2 e nós fazemos o resto”, recomenda a separação em duas frações: comum e reciclável (secos). Como resultado, os resíduos orgânicos são tratados como rejeito e descartados em aterros, cujos impactos negativos mencionamos anteriormente. Dessa forma, acabam perdendo seu potencial de reaproveitamento e, sobretudo, de reciclagem.

O diretor executivo da Eco Circuito, Eduardo, pontuou que incentivar a separação dos resíduos em mais de uma fração é um avanço importante. Também o é garantir que a parcela de secos chegue à reciclagem. Mas completou, afirmando que ”não endereçar a questão dos alimentos, que representam metade do volume, deixa a sensação de que o trabalho está incompleto”.

Comida não é lixo – e o desperdício de alimentos em supermercados não deve ser encarado como “parte do negócio”

Historicamente, supermercados vivenciam, no dia a dia, um cenário de grande desperdício, em especial de alimentos, cuja validade é mais breve do que outros produtos. E, em decorrência disso, a prática passou a ser vista como um ônus indissociável da operação.

À frente da SaveAdd, que utiliza inteligência artificial para prevenir e reduzir desperdícios em supermercados, Salvador acredita que este mindset está institucionalizado. E que, conseqüentemente, esse é um grande obstáculo para que o cenário evolua. Ele afirma, ainda, que não é raro encontrar profissionais que perpetuam a visão de que o desperdício “faz parte” de um custo “aceitável”.

Para contextualizar a questão, ele mencionou a diferença na forma de enxergar custos aqui no Brasil em comparação aos Estados Unidos. Enquanto o empresariado local considera como custo apenas o valor de aquisição dos produtos, por lá existe o conceito de “custo gerencial”. Isto é, a soma do valor pago e do valor que deixará de ser ganho, caso o produto não seja vendido. Na prática, diferentemente da visão americana, muitos supermercadistas brasileiros não encaram o descarte de alimentos como prejuízo.

Para complementar o assunto, o Herberto compartilhou a impressão, baseada em sua experiência no Banco de Alimentos. Contou que muitos empresários, ao invés de buscarem alternativas como a doação, preferem omitir o volume que jogam fora. Isso porque ficam receosos quanto ao impacto negativo para a marca a e opinião pública. “O que muitos não enxergam, porém, é a oportunidade inversa de melhorar sua reputação,  através da divulgação de atitudes conscientes e práticas sustentáveis”.

Temos que parar de avaliar os alimentos pelo viés estético

Outro tema bastante discutido na roda de conversa é a pressão estética sobre alimentos. Muitos supermercados estabelecem critérios mínimos em relação ao tamanho, o formato e à aparência de frutas e verduras. Essa questão contribui significativamente para o problema do desperdício, além de gerar prejuízos ao longo de toda a cadeia – produtor, distribuidor e lojista.

Recentemente, o Ministério da Agricultura divulgou uma nova portaria, já em vigor, que estabelece critérios mínimos para que produtos sejam comercializados. Na visão dos participantes, a iniciativa chega para tornar ainda mais complexa a situação. Afinal, determina o descarte de produtos que estejam sujos e/ou com anomalias visuais, como por exemplo cenouras “duplas”, que são relativamente comuns.

Ainda sobre o assunto, o Eduardo chamou atenção para o fato de que a pressão estética também envolve os consumidores. Ele destacou que “os compradores têm o desejo de adquirir produtos com ótima aparência e que tragam mais praticidade para o seu dia a dia”. Citou como exemplo a preferência por descascar uma batata grande, ao invés de duas pequenas. No fim das contas, essa rejeição do alimento na gôndola contribui diretamente para o descarte de um alimento em perfeitas condições de consumo.

Planejamento de compras e gestão de perdas ainda são incipientes no Brasil

Uma outra questão, com impacto direto no problema do desperdício de alimentos em supermercados, é a ausência – ou inconsistência – do planejamento de compras, controle de estoque e gestão de perdas. Também é comum que essas atividades existam, mas não estejam integradas no dia a dia da operação. As consequências mais recorrentes são a compra de mais produtos que o necessário e o mal dimensionamento de estrutura e recursos para gestão dos resíduos.

Para tangibilizar este ponto, o Eduardo compartilhou um caso real, de um supermercado que utiliza o biodigestor representado pela Eco Circuito para o processamento de resíduos orgânicos. Ele contou que a definição do tamanho de equipamento foi feita com base no volume de resíduos indicado pelo cliente, mas foram necessários poucos dias para identificar que o volume gerado era muito maior do que o previsto. “Ficou claro que o próprio cliente não conhecia o contexto interno de geração de resíduos com profundidade. O desafio é implementar a lógica dos 3Rs e evitar que o resíduo seja gerado como ponto de partida”.

Outro exemplo, dessa vez citado pelo Salvador, tem a ver com a definição de indicadores que criam obstáculos para uma gestão mais sustentável. Segundo o executivo, muitos varejistas têm mais de R$ 500 mil em produtos parados, chegando até a R$ 1 milhão, mas que não podem ser retirados da loja ou do CD pois prejudicaria o resultado de quebra de estoque, gerando a impressão de um resultado extremamente negativo.

Ainda sobre o tema, pudemos contar com a contribuição de uma das espectadoras do bate-papo, que atua em um grande varejista do segmento de hortifruti. Ela compartilhou que, na operação desta empresa, a preocupação com a sustentabilidade e a redução do desperdício está no DNA, mas que “é uma questão intuitiva, não estratégica ou de planejamento”.

Revisão de processos e engajamento das equipes são aspectos fundamentais para a transformação operacional

Mesmo atuando com soluções e empresas diferentes entre si, todos os participantes do bate-papo já vivenciaram situações que deixam claro: a operação pode se tornar um obstáculo para a implantação de um modelo mais sustentável de gestão. E os motivos são diversos.

Tanto a Eco Circuito quanto a SaveAdd iniciam o trabalho junto aos clientes por um processo de diagnóstico sobre o contexto interno da operação, em que momento ocorre a geração de resíduos, e como ocorre o descarte. Muitas vezes fica claro, nessa etapa, que o conhecimento dos gestores sobre os resíduos gerados não é aprofundada.

“Em nosso processo de diagnóstico, olhamos para o volume e os tipos de resíduos gerados, mas principalmente para as fontes de geração, as rotas internas e externas a que os resíduos são submetidos, e a estrutura para acondicionamento, armazenamento e descarte”, explicou Eduardo. “Muitas vezes não há controle nos diversos setores da operação sobre a quantidade de resíduos sendo gerada, para que ações específicas sejam tomadas para combater o desperdício e assim otimizar a gestão dos resíduos”.

O engajamento das equipes envolvidas no processo é peça fundamental. É consenso entre os participantes que a sensibilização do board da empresa ou a participação da área de sustentabilidade no processo não são suficientes, se não houver cascateamento da importância do tema em toda a organização.

Uma estratégia para garantir o engajamento de todos os atores da cadeia é a produção de conteúdo de conscientização e capacitação para a equipe do cliente. É o caso da Eco Circuito, como contou Eduardo, que produz materiais visuais para o ponto de instalação com dicas e boas práticas, além de incluir no escopo de implantação da solução uma etapa dedicada ao treinamento dos times que atuarão no dia a dia.

O investimento em uma operação mais sustentável gera ganhos financeiros diretos

Questionados sobre a abordagem mais efetiva junto aos supermercadistas, os representantes da Eco Circuito e da SaveAdd concordam que a questão financeira é a que mais sensibiliza os gestores. Apesar de tantas notícias que deixam clara a necessidade do engajamento de todos (como aquecimento global, enchentes e contaminações), a pressão por resultados ainda fala mais alto no dia a dia.

Assim sendo, as duas empresas trazem a questão financeira com destaque em suas iniciativas de comunicação, paralelamente aos esforços de conscientização ambiental e social. “Precisamos comprovar, de forma rápida e objetiva, que o investimento em uma operação mais sustentável gera ganhos diretos, se quisermos conquistar a atenção dos tomadores de decisão”, relatou Salvador. “Os ganhos indiretos, como os benefícios para o meio ambiente e a sociedade ainda não são a prioridade das empresas”.

>> Clique aqui para saber mais sobre os ganhos diretos – tanto financeiros, quanto operacionais e institucionais – da adoção de práticas mais sustentáveis na operação.

Ao mesmo tempo, outro aspecto diretamente relacionado à questão financeira é a preocupação das empresas com eventuais prejuízos que possam ser ocasionados por mudanças operacionais e iniciativas sustentáveis – sejam eles financeiros ou de imagem. Isso ficou claro sobretudo no depoimento do Herberto sobre o assunto, que contou que um dos grandes desafios enfrentados pelo Banco de Alimentos é a preocupação das organizações com problemas que possam ser causados no processo, como contaminação por alimentos estragados. Há, igualmente, empresas cujas políticas proíbem o repasse de alimentos. A fim de mitigar riscos, a ONG executa uma rotina de filtro de alimentos aptos ao consumo, obriga as instituições receptoras a assinarem um termo de responsabilidade e nunca teve problemas ou reclamações, em mais de 20 anos.

Como os alimentos podem ser aproveitados antes do descarte?

De acordo com os 3Rs da sustentabilidade, a ordem de prioridade em relação aos resíduos deve ser: reduzir, reutilizar e, só em última instância, descartar de maneira adequada, para que possa ser reciclado. Com os resíduos alimentares não é diferente.

No ambiente dos supermercados, a redução nos resíduos gerados está diretamente ligada à questão do planejamento e o controle de estoque. E, para a reutilização, existem algumas alternativas, tanto internas – como produção de receitas para venda e a disponibilização de alimentos (como frutas) para consumo na loja – quanto externas, em que se destaca a doação.

O Banco de Alimentos atua na arrecadação de alimentos e distribuição para instituições que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade – moradores de rua, idosos em casas de repouso, crianças em creches, dentre outros. Em 21 anos de atuação, mais de 8 milhões de quilos de alimentos já foram salvos e repassados. Hoje, a ONG atende 41 instituições e mais de 20 mil pessoas, mas a fila de interessados tem mais que o dobro disso. “Hoje, temos menos alimentos do que bocas para alimentar e, para melhorar esse cenário, dependemos diretamente do crescimento no número de doadores”, explicou Herberto.

Ainda sobre a redução e a reutilização de resíduos, o Eduardo chamou a atenção para a importância do trabalho em rede, que garanta um processo otimizado para os resíduos. “O biodigestor representa o terceiro R, da reciclagem, que só deve ser acionado em última instância. Por essa razão, na etapa de planejamento da solução para nossos clientes, promovemos uma etapa de identificação de oportunidades para o resíduo que antecedem o descarte e contamos com uma rede de parceiros, que podem ser plugados ao processo”, explicou. 

Tecnologia como caminho para a redução do desperdício de alimentos em supermercados e outros grandes geradores

Ficou clara, durante a roda de conversa e os relatos dos participantes, a importância que a tecnologia desempenha no processo de gestão mais sustentável de resíduos. Sua aplicação facilita o processamento dos resíduos, a análise de dados e a geração de indicadores, assim como a comunicação entre as partes envolvidas. Em cada uma das empresas representadas no bate-papo, é diferente o papel da tecnologia, mas sempre fundamental:

Eco Circuito – o biodigestor representado pela empresa foi desenvolvido no Vale do Silício, pela Power Knot, e utiliza-se de alta tecnologia para acelerar o processo de decomposição de resíduos orgânicos na presença de ar (biodigestão aeróbia). Além disso, o equipamento é conectado a um servidor em nuvem, que permite gestão e monitoramento remoto da operação, com base em dados fornecidos em tempo real sobre o volume de descartes realizado e a quantidade de efluente gerado na operação.

>> Saiba mais sobre a Eco Circuito.

SaveAdd – a empresa utiliza ferramentas tecnológicas para controle e rastreamento de produtos e gerenciamento de transações, fornecendo assim dados apurados (e antes inexistentes). As avaliações realizadas pelo sistema orientam então os gestores e tomadores de decisão. A solução se utiliza de inteligência artificial para ajudar empresas na redução do desperdício, gerando mais lucro e produtividade para a operação.

>> Saiba mais sobre a Save Add.

Banco de Alimentos – para dar suporte, controle, transparência e segurança à operação de retirada e distribuição de alimentos, a ONG desenvolveu um app que viabiliza o monitoramento e o acompanhamento dos produtos doados. Mais do que isso, a tecnologia desempenha um papel fundamental na divulgação da iniciativa e contato com potenciais doadores.

>> Saiba mais sobre o Banco de Alimentos.

Conclusões e perspectivas

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Sustentabilidade corporativa e a gestão de resíduos orgânicos são temas em evolução, mas ainda há um caminho longo a ser percorrido, em diversos aspectos – conscientização da sociedade civil e da iniciativa privada, escalabilidade das soluções para resíduos, valorização dos ganhos indiretos com a sustentabilidade, dentre outros. Porém, também é inegável que, dia após dia, o movimento em direção a um mundo mais vivo ganha força, tração, velocidade e mais adeptos.

No setor supermercadista, ficou clara a oportunidade de transformação e redução no desperdício de alimentos, assim como os desafios para isso se tornar uma realidade. Um deles, extremamente relevante, é o fato de que os varejistas são apenas um dos atores de um ecossistema complexo, que inclui empresas de outros segmentos, o poder público e a sociedade civil como um todo. A responsabilidade é compartilhada e a solução precisa ser construída em rede.

Ficamos felizes com a repercussão do evento, a riqueza das discussões e a oportunidade de levar o assunto para a SP Tech Week, maior evento de tecnologia da América Latina. Enxergamos momentos assim como um passo fundamental na jornada de combate ao problema do lixo. Saímos do evento ainda mais seguros de que a conscientização, o conhecimento compartilhado e uso da tecnologia são fundamentais para evoluirmos na forma como tratamos nosso lixo – do modelo tradicional e linear de consumo e descarte, para um modelo circular de reaproveitamento.

E você, o que achou do bate-papo? Deixe seus comentários aqui embaixo e vamos continuar essa conversa.
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