Lixo orgânico: desafio para a gestão de resíduos no Brasil

Lixo orgânico em empresas

Enquanto milhões de brasileiros convivem com a fome, diariamente são geradas mais de 40 mil toneladas lixo orgânico. Isso significa que mais da metade dos resíduos gerados no Brasil é comida. Portanto, esse é um dos principais obstáculos para revertermos o ciclo do desperdício no país.

As consequências das mudanças climáticas já são sentidas em praticamente todas as regiões do mundo. Nesse sentido, não é raro sermos impactados por notícias climáticas alarmantes – a saber, ondas de calor recorde, tempestades fora de época, doenças potencializadas pelo calor (como a dengue), aumento do nível do mar são alguns exemplos. Ao mesmo tempo, o Relatório da OMS apresentado na Conferência sobre o Clima (COP24 – 2018), a poluição do ar causa, anualmente, mais de 7 milhões de mortes.

Com toda a certeza, um dos principais problemas é que, cada vez mais, desgastamos os recursos naturais numa velocidade maior do que a Terra é capaz de produzi-los.

A Global Footprint Network faz, desde os anos 70, uma medição a fim de definir o Dia da Sobrecarga da Terra. É portanto o dia no ano que marca o momento em que consumimos mais recursos do que a Terra seria capaz de regenerar dentro daquele período. Assim, é como se fosse um Balanço dos Recursos Naturais. Enquanto que, em 1999, a Terra operou em déficit a partir de 29 de setembro, em 2009, 10 anos depois, o mesmo ocorreu no 19 de agosto. Esse ano, contudo, atingimos a sobrecarga da Terra no dia 29 de julho, quase um mês antes.

As projeções também não são positivas. Primeiramente, o Banco Mundial indica que o volume de lixo produzido no mundo vai aumentar em cerca de 70% nos próximos 30 anos. Ao mesmo tempo, as Nações Unidas estimam que daqui a 10 anos precisaremos de duas Terras para produzir os recursos naturais necessários para sustentar nosso consumo. Com efeito, muitos fatores influenciam esse cenário: crescimento populacional acelerado, aumento das disparidades sociais e, conseqüentemente, do volume de pessoas em situação marginalizada são alguns dos exemplos. Da mesma forma, o fato de termos taxas ainda pequenas de pessoas sensibilizadas para o problema agrava a questão.

Vivemos um modelo linear de produção, consumo e descarte que tem de ser revisto: precisamos sobretudo evoluir para um modelo circular de reaproveitamento.

O dever é de todos – em casa e, principalmente, nas empresas. Afinal, só juntos vamos conseguir deixar um mundo mais vivo para as próximas gerações.

>> Saiba mais sobre o problema do lixo no Brasil e no mundo.


NÃO É POSSÍVEL MUDAR UM CENÁRIO QUE NÃO CONHECEMOS. POR ISSO, ENTENDER OS RESÍDUOS GERADOS EM CASA OU NA EMPRESA É O PRIMEIRO PASSO PARA ADOÇÃO DE UMA GESTÃO MAIS EFICAZ E SUSTENTÁVEL.

Um dos principais entraves na luta contra a crise climática é o lixo orgânico, do qual pouco se fala. Resíduos orgânicos são todo e qualquer material de origem biológica, como sobras de alimentos, borra de café, resíduos de jardinagem, dejetos humanos e animais. Considerado “lixo” na maior parte das casas e empresas, esse material orgânico pode ser transformado em matéria-prima, desde que devidamente separado e tratado.

Representando mais de 50% do lixo gerado no Brasil, estamos falando de um desperdício diário de cerca de 41 mil toneladas de comida. A saber, essa quantidade seria suficiente para alimentar mais de 25 milhões de pessoas (Instituto Akatu e Onu Verde).

Campanhas de conscientização tendem a focar apenas na separação e destinação do lixo seco e reciclável, como plásticos, vidros e alumínio. Decerto é uma parte essencial dessa equação, mas elimina as chances de reutilização do resíduo orgânico. Um exemplo é a campanha Recicla Sampa, da Prefeitura de São Paulo, que utiliza o slogan: “Você separa o lixo em 2, nós fazemos o resto”. Com isso, a Prefeitura está incentivando a divisão dos resíduos em duas frações: comum (rejeitos) e reciclável (secos).

Descartado juntamente com os demais rejeitos, o lixo orgânico perde seu potencial de reaproveitamento, reciclagem e até mesmo de rentabilização. E o impacto vai além dos aspectos econômicos e sociais, atingindo também a área ambiental: em aterros e lixos, a matéria orgânica emite gás metano a partir do apodrecimento e atrai vetores de doenças, como ratos e baratas.

 A FAO Brasil estima que cerca de 30% dos alimentos produzidos no Brasil sequer chegam à mesa da população e que 28% das áreas agrícolas são destinadas à produção de alimentos que acabam descartados.

O desperdício acontece em toda a cadeia de produção e começa ainda na colheita, onde perdemos 10% dos alimentos plantados. A rota de desperdício continua no manuseio e transporte, etapa que leva 50% dos alimentos. 30% se perde nas centrais de abastecimento (CEASAS) e os outros 10% nos lares e supermercados.

De toda essa comida descartada, apenas 1% é reaproveitada de alguma forma. Se os outros 99% fossem submetidos a processos de tratamento, teríamos uma redução nas emissões de metano equivalente a tirar 7 milhões de carros de circulação (Abrelpe). Isso é mais do que o total de veículos registrados na cidade de São Paulo em 2018 (5,7 milhões). Isso sem contar que, ao descartar alimentos, estamos jogando dinheiro fora: segundo o Instituto Akatu, em parceria com a ONU Verde, estima-se um desperdício mensal residencial de R$ 180 por mês – cerca de 30% do gasto médio por lar com alimentos. Em empresas, os números também são expressivos: no segmento de supermercados, por exemplo, a Abras (Associação Brasileira de Supermercados) calcula mais de R$ 7 bilhões em desperdício, aproximadamente 2% do faturamento do setor.

A responsabilidade é compartilhada!

Dez anos após a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece a responsabilidade compartilhada entre todos os atores sociais, ainda é pequeno o impacto efetivo. No aspecto residencial, além de todo o desperdício de alimentos, alternativas como a compostagem doméstica – já consolidada em países evoluídos na questão dos resíduos – ainda é incipiente e pouco disseminada. Já no âmbito corporativo, os números deixam claro que ainda há muito espaço para melhorar e ainda há pouca fiscalização quanto ao cumprimento da lei. 

No ano passado, a AMLURB, empresa de limpeza urbana da cidade de SP, tornou obrigatório o cadastro de grandes geradores, como forma de mapear e responsabilizar cada fonte geradora pela destinação correta. A iniciativa representa um passo importante, mesmo que em escala local, para evolução na gestão de resíduos. Porém, é preciso fazer mais. Todos os setores da sociedade precisam agir em conjunto para reverter o ciclo do lixo: consumir menos, produzir de forma mais eficaz, reutilizar mais, reciclar e destinar adequadamente. 

COMO PODEMOS LIDAR COM O LIXO ORGÂNICO? QUAIS SÃO AS ALTERNATIVAS?

Além de ajudar na preservação do meio ambiente, uma gestão mais eficaz e sustentável de resíduos pode trazer ganhos financeiros, operacionais e institucionais. Confira neste artigo os benefícios da gestão de resíduos em empresas.

Em primeiro lugar, é importante repetir: conhecer o lixo que produzimos é essencial para criar diretrizes de redução e reuso. Identificar os desperdícios recorrentes possibilita ajustar a produção, diminuindo o volume de matéria-prima adquirida ou dando novo uso ao excedente.

Em segundo lugar, implementar soluções de separação do lixo, pois só assim será possível definir o descarte correto para cada tipo de resíduo gerado.

Oportunidades para o resíduo orgânico:

Quando falamos do resíduo orgânico, uma das possibilidades é trata-lo para ser reutilizado como matéria-prima. Como isso será feito vai depender do tipo de operação, volume de resíduo gerado, espaço disponível, logística e outros fatores referentes à natureza de cada empresa. 

>> Saiba mais sobre cada forma de destinação de resíduos orgânicos e quando são indicadas.

Outra opção para destinação dos resíduos orgânicos, que não sua reciclagem e transformação em matéria-prima, é direcioná-los para uso enquanto ainda saudáveis. Uma opção é incluir restos de frutas e legumes, que seriam descartados, no preparo de refeições. Outra ideia é fazer a redistribuição de alimentos próprios para consumo (mas impróprio para o comércio, por exemplo) para quem necessita dele.

Nesse sentido, a ONG Banco de Alimentos coleta o excedente de alimentos da indústria e comércio e distribui para instituições sociais, que diariamente transformam esse excedente em refeição e atendem mais de 20 mil pessoas.

O Comida Invisível é um app que atua como uma ponte direta entre restaurantes, supermercados, hotéis, buffets e bares com ONGs. Portanto, facilita a doação de alimentos impróprios para o comércio, porém próprios para o consumo.

Já o Saveadd é uma iniciativa voltada para grandes geradores de excedente, que faz o trabalho de encontrar instituições aptas a absorver esse excedente por meio de compra ou recebendo em doações. Essas instituições vão de ONGs a setores do serviço público.

É PRECISO SE ENVOLVER CADA VEZ MAIS COM O TEMA PARA CRIARMOS UMA MUDANÇA DE PARADIGMA E DA CULTURA DO LIXO. ASSIM, PODEREMOS EVOLUIR DO MODELO LINEAR DE CONSUMO E DESCARTE, PARA UM MODELO CIRCULAR DE REAPROVEITAMENTO.

Se quiser aprofundar seu conhecimento sobre o tema, sugerimos assistir ao documentário Trashed – Para Onde Vai Nosso Lixo, de 2012. Ele aborda justamente o problema da destinação do lixo na cultura ocidental. Tem outros conteúdos interessantes sobre o tema para indicar? Comente aqui embaixo! Vamos consolidar as dicas e compartilhar com nossa rede para continuarmos espalhando informação e fomentando a conscientização sobre o assunto.

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Conheça os benefícios da gestão de resíduos para empresas, sob os aspectos institucional, operacional e financeiro.
Saiba mais sobre as alternativas de destinação de resíduos orgânicos.

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