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Economia circular: o caminho para um mundo mais vivo

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A atividade econômica da humanidade no decorrer dos séculos ocasionou um ciclo de destruição da natureza que está próximo do colapso. Crises climáticas; poluição tóxica; contaminação de rios, mares, alimentos e pessoas. Entenda como podemos reverter esse ciclo evoluindo para um modelo circular de reaproveitamento de recursos, que substitua o formato linear de extração, produção, consumo e descarte.

Temos acompanhado, nos últimos anos, notícias alarmantes sobre os impactos que nós, seres humanos, causamos à natureza – e, consequentemente, a nós mesmos. Neste ano, chegamos mais cedo do que nunca ao Dia de Sobrecarga da Terra, data em que passamos a consumir mais recursos do que o planeta é capaz de regenerar. Em 2019, esse dia chegou em 29/7, um mês antes do que a data registrada 20 anos antes.

As perspectivas para os próximos anos deixam o problema ainda maior. O Banco Mundial projeta que, até 2050, teremos 1,3 bilhão a mais de habitantes no planeta, que devem aumentar o volume de lixo produzido em 70% – hoje, são cerca de 2 bilhões de toneladas, que devem chegar a 3,5 bilhões. A estimativa é que, com isso, sejam necessárias duas Terras para suportar nosso consumo – o que, claramente, não temos.

Precisamos reverter esse ciclo se quisermos garantir um mundo mais vivo para as próximas gerações, e acreditamos que a Economia Circular é o caminho para isso.

O conceito de Economia Circular

A Ellen MacArthur Foundation, instituição sem fins lucrativos que lidera mundialmente o desenvolvimento e a disseminação da Economia Circular, oferece a seguinte definição:

“O modelo econômico ‘extrair, transformar, descartar’ da atualidade está atingindo seus limites físicos. A economia circular é uma alternativa atraente que busca redefinir a noção de crescimento, com foco em benefícios para toda a sociedade. Isto envolve dissociar a atividade econômica do consumo de recursos finitos, e eliminar resíduos do sistema por princípio. Apoiada por uma transição para fontes de energia renovável, o modelo circular constrói capital econômico, natural e social.”

O principal elemento da economia circular, que garante sua aplicabilidade ao contexto econômico atual (e ao dia a dia das empresas) é o reconhecimento da importância do funcionamento da economia em qualquer escala – de pequenas a grandes empresas; para indivíduos e organizações; em escala local ou global.

A proposta não é de apenas reduzir os danos causados pela economia linear, mas transformar sistematicamente a forma como produzimos, consumimos e descartamos. Trata-se de uma evolução do que temos hoje: no modelo linear, as atividades econômicas têm como foco a geração de riqueza; no circular, devem ser capazes de fazer isso e ainda contribuir para a saúde, a sustentabilidade e a resiliência do próprio sistema.

O vídeo “Re-Thinking Progress”, produzido pela Ellen MacArthur Foundation, aborda a mudança de perspectiva necessária que é necessária para transformarmos, de fato, a economia: de linear para circular; de finita para sustentável.

Principais diferenças entre Economia Linear e Economia Circular

Geração de resíduos

Economia linear – há geração de lixo em todas as etapas da cadeia produtiva.

Economia circular – não existe lixo: tudo volta para a cadeia, de forma que possa ser reutilizado, reprocessado ou, em última instância, reciclado.

Utilização de recursos

Economia linear – foco em quantidade e escalabilidade, baseada em técnicas de extração e uso de recursos que não favorecem seu retorno para o ciclo produtivo. Tudo vira lixo.

Economia circular – foco em qualidade no uso do recurso e prolongamento de sua vida útil, através de redução, reutilização e reciclagem. Não existe geração de lixo, mas de resíduos com valor econômico/monetário.

Compensação de externalidades negativas

No conceito de Economia Circular, externalidades consistem em desdobramentos oriundos da produção, do consumo e do descarte. Exemplos negativos atuais são a crise do clima, os problemas de saúde decorrentes de lixo contaminado e a iminente escassez de recursos naturais nos próximos anos.

Economia linear – não existe preocupação com os meios para chegar ao produto final e os impactos (as externalidades) não são considerados no processo produtivo.

Economia circular – as externalidades negativas decorrentes do processo produtivo são transformadas em custos, que integram o preço e devem ser compensados.

Ciclos que compõem a Economia Circular

Na Economia Circular, as atividades de um organização se dividem em dois tipos de ciclo: biológico ou tecnológico. A compreensão de suas diferenças e da forma mais indicada para lidar com cada caso é fundamental para o planejamento das mudanças necessárias para a adequação do sistema produtivo ao modelo linear.

Ciclo biológico:

Ocorre quando o processo utiliza, em qualquer de suas etapas, recursos de origem biológica, oriundos de fontes renováveis. Esses recursos retornam ao ciclo produtivo através de métodos de processamento naturais, como a biodigestão e a compostagem. 

O papel que os ciclos biológicos desempenham no processo produtivo é, literalmente, vital. Sua função é regenerar sistemas vivos como o solo, a água e outras fontes de geração de energia limpa, de forma que possam continuar produzindo recursos com qualidade.

Ciclo tecnológico:

Os ciclos tecnológicos são os que envolvem recursos finitos, que não podem ser devolvidos à natureza por terem sido utilizados ou transformados ao longo do processo. Envolvem desde a extração do recurso até o descarte do produto final, que deve ser recuperado por meio de técnicas como reuso, reparo, remanufatura e, em último caso, reciclagem.

O desafio do engajamento

Para chegar ao objetivo de redução a zero da geração de resíduos no ciclo produtivo, é um diferencial assegurar que as pessoas envolvidas nos diversos processos estejam engajadas com o conceito de Economia Circular e, portanto, conscientes de como devem atuar no dia a dia da gestão de resíduos.

Na prática, a questão do engajamento representa um dos maiores desafios para evoluirmos rumo à Economia Circular no Brasil. Segundo dados da Abrelpe (2018), o brasileiro entende a importância de temas como sustentabilidade, reciclagem e preservação da natureza (98%), mas ainda não partiu para a ação: apenas 39% dos lares fazem separação de resíduos.

As empresas, no contexto da Economia Circular, enfrentam um desafio ainda maior. Assegurar o treinamento das equipes, de forma a garantir qualidade nos processos é fundamental, mas não é suficiente. Também faz parte do papel da iniciativa privada contribuir para o aumento da conscientização – e da ação – entre a população em geral.

A questão vai além da função social da empresa. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) determina que cabe às empresas a logística reversa de seus produtos. Para isso, dependem da coleta seletiva, que enfrenta uma série de obstáculos no Brasil. Destacamos dois, que deixam claro o estágio distante em que estamos do cenário ideal:

  • Menos de 25% dos município no país contam com serviço de coleta seletiva.
  • 66% da população sabe pouco ou nada sobre separação de resíduos e reciclagem.

A separação correta dos resíduos em diferentes frações e o armazenamento de cada tipo é um desafio anterior à coleta, com alto potencial de comprometer os resultados ao longo do processo. Uma situação comum é o descarte de embalagens com restos de comida: ambos poderiam ser devolvidos à cadeia produtiva, se tratados em ciclos – biológico e tecnológico – apartados. Entretanto, uma vez que são descartados juntos, eliminam a possibilidade de reaproveitamento do resíduo orgânico, enquanto o resíduo plástico corre risco de ter seu potencial de reciclagem esgotado. Isso ocorre, por exemplo, porque o alimento apodrece e compromete o recipiente e/ou toda a carga onde foi depositado.

Como transformar a Economia Circular em realidade nas empresas?

Transformar a Economia Circular em realidade no dia a dia é um processo que requer tempo, investimento, uso estratégico de tecnologia e conhecimento aprofundado – sobre o negócio, os resíduos gerados na empresa, o conceito de Economia Circular em si e as ferramentas disponíveis para solucionar os diferentes problemas no decorrer do processo.

Por outro lado, percorrer toda a jornada para colocar em prática um modelo circular tem potencial de gerar um retorno positivo que extrapola os benefícios ambientais e sociais. A aplicação do conceito na operação também fomenta a economia e os negócios, trazendo benefícios diretos para os resultados das empresas – saiba mais neste artigo.

Quer aprofundar seus conhecimentos em Economia Circular e as etapas necessárias para transformá-la em realidade nas empresas? Continue lendo sobre o tema, neste artigo em que detalhamos as principais características de um processo circular, as ferramentas que podem contribuir para sua otimização e as etapas para colocar tudo isso em prática.